D.D / Ambrosetti Brasil

4. Editorial

O tão necessário III Plano Nacional de Desenvolvimento

Uma das críticas mais comuns feitas aos governantes brasileiros é que não existe planejamento de longo prazo. De fato, não existe. O que temos são os Planos Plurianuais, com horizonte de 4 anos, que na prática apenas detalham o programa de governo do administrador de plantão.

Planejamento de longo prazo requer que se tenha uma visão de futuro do país. Algo como 30 ou 40 anos lá na frente. Estabelecida esta visão, tudo o que vier depois é um alinhamento de esforços e de políticas no sentido de se realizar tal visão. A China fez isso 40 anos atrás. A Coréia fez a mesma coisa nos anos 60. O Japão seguiu esta receita a partir dos anos 50. Todos os países de industrialização e/ou desenvolvimento tardios planejaram seu crescimento porque não é possivel deixar o futuro da nação ao sabor das “forças de mercado” e nem ambicionar ser tudo para todos. É preciso ter foco para se poder explorar ao máximo os (parcos) recursos disponíveis.

Nos anos 70, o Brasil namorou de perto com planos nacionais de desenvolvimento. Em 1972 surgiu o I PND, cujo objetivo maior era preparar a infra-estrutura necessária para o desenvolvimento do Brasil nas décadas seguintes, com ênfase em setores como telecom e transportes, expansão das indústrias naval, siderúrgica e petroquímica, além de pesados investimento em educação, ciência e tecnologia. O plano tinha metas quantitativas de curto prazo: taxa de crescimento econômico anual ao redor de 10%, inflação no patamar máximo de 20% ao ano e aumento das reservas cambiais. O plano também estabelecia um modelo de financiamento para tudo isso, baseado na concentração de capitais em grandes empresas estatais e grupos privados brasileiros e na atração de capital de investimento internacional. O I PND foi muito bem sucedido no que se propôs a atingir, embora o legado de grandes estatais esteja na raiz de vários dos nossos problemas atuais.

O II PND, elaborado em 1974, apresentou à sociedade a visão que ficou conhecida como o “Brasil Grande”. Se o II PND tivesse dado certo, o Brasil seria  hoje uma China da vida. Ambicionava-se posicionar o país como uma nação plenamente desenvolvida e economicamente poderosa, com controle tecnológico e industrial de cadeias produtivas inteiras. A segunda metade dos anos 70 marcou o auge da industrialização brasileira, com o surgimento de grandes grupos empresarias que, em teoria, deveriam ter o mesmo papel dos Chaebols coreanos e das empresas capitãs do Governo Lula: serem os pilares da economia brasileira e de sua projeção no mundo.

O II PND falhou por alguns motivos, sendo que o mais importante foi buscar fontes de financiamento nos petrodolares, gerando uma imensa divida externa. Com o planeta em recessão, nossas exportações não eram suficientes para garantir uma balança comercial positiva. Quando as taxas de juros internacionais subiram à estratosfera em 1981 (em decorrência da ação do FED – banco central americano – que queria a todo custo controlar a inflação naquele país), o Brasil quebrou e levou junto seus planos de desenvolvimento e o governo militar. Ainda assim, o II PND deixou um legado imensamente positivo no domínio das novas tecnologias de energia alternativa (principalmente álcool e nuclear), um enorme e moderno parque industrial, o domínio completo de cadeias produtivas industriais, o inicio da profissionalização e modernização da agricultura nacional (cujos resultados positivos perduram até hoje) e auto-suficiência em boa parte da produção de insumos e bens de capital

Com o retorno dos governos civis, o foco passou a ser nas ações de curto prazo: controlar a hiper inflação, gerenciar crescentes deficits públicos, administrar as imensas estatais (cuja gestão deixou de ser técnica e passou a ser política, transformando-as em cabides de emprego e bastante ineficientes) e redesenhar o mapa de poder após 21 anos de regime militar

Desde então, o Brasil nunca mais pensou ou se planejou a longo prazo. O país vive hoje um momento dramático. As crises se superpõe: moral, ética, institucional, econômica, administrativa, política, industrial, social … liste uma crise e é provável que ela exista no país. Não existe qualquer possibilidade do país ser reconstruído sem que se desenhe uma política de longo prazo, a qual deriva de uma visão de longo prazo

E assim voltamos ao ponto: o Brasil precisa urgentemente de um III Plano Nacional de Desenvolvimento. Se o governo atual tem condições de produzir um ou não, é uma questão ainda em aberto. Mas certamente seria um legado de extremo valor ao próximo ocupante do cargo máximo.

 

Do Velho, do Novo e do Lugar Nenhum (08/06/2017)

O Brasil é um país de ponta cabeça. Tudo o que observa aqui parece ser o contrário do que predomina no resto do mundo. Por razões profissionais, eu convivo com muita gente, pessoas dos mais diversos perfis, associadas às mais variadas atividades empresariais. É um dos benefícios da consultoria gerencial, que foi potencializado pela nossa associação com o Think Tank europeu Ambrosetti. Um dia típico meu só termina depois de conversar com pessoas de pelo menos meia dúzia de atividades completamente distintas.

Diariamente eu me vejo frente a uma situação surreal. A maior parte das pessoas está chocada com o grau de distorção, corrupção, desmandos e falta de senso público dos políticos. Na ótica coletiva, o Brasil não é nada mais do que uma terra a ser explorada e dilapidada pelo mais esperto, mesmo que ele tenha de se compor com outros malandros como ele. O Brasil de 2017 é igual ao das capitanias hereditárias, com a única diferença que a população atual é infinitamente maior do que a de 300 anos atrás. A perplexidade se une à experiência de vida para desaguar em um desencanto geral e em uma falta completa de otimismo com relação ao futuro. Há 500 anos que o Brasil é um feudo selvagemente explorado por poucos em absoluto desrespeito à lei e as pessoas. Assim foi, assim é e, na ótica de muitos, assim será para sempre

No meio desse cenário negro brotam jovens inovadores que se escudam na falta de vivência para sonhar com um futuro bastante diferente. Esses jovens lutam contra tudo – da estúpida burocracia brasileira ao pensamento cartorial, do Estado centralizador à fúria legisladora, da inépcia do judiciário ao perfil profundamente individualista da sociedade brasileira – para tentar viabilizar projetos e negócios originais. Projetos esses que qualquer país sério do mundo apoiaria de maneira decidida, oferecendo infraestrutura física, capitais a baixíssimo custo, simplicidade fiscal e burocrática, acesso a mercado, regulamentação simplificada (ou ausência de regulamentação) e, acima de tudo, imensa simpatia pela iniciativa. É o oposto do Brasil, onde uma ideia disruptiva gera desconfiança dos consumidores, imediato desejo de pesada tributação por parte do governo, imediato desejo de extensa regulamentação por parte dos legisladores, imediata reação corporativista por parte daqueles que receberão a nova concorrência, zero de acesso a mercado, zero de acesso a capitais de financiamento e uma visão geral de que o esforço do empreendedor é só mais “um jeito de alguém explorar os outros pra enriquecer”

O Brasil atingiu a perfeição: temos uma economia dirigida a favor de apaniguados, um sistema político que visa concentrar poder e dinheiro nas mãos de poucos, uma imensa burocracia pública que visa garantir o emprego de milhões de indivíduos que não produzem nada, um sistema legislativo que tira proveito da ignorância popular para interferir na vida de tudo e de todos, gerando um emaranhado de leis que ninguém entende, um sistema fiscal obtuso e pesadíssimo que tem a dupla função de injetar uma fortuna na máquina estatal de desperdícios enquanto sustenta máfias de fiscais, e uma mentalidade que se espalhou pela sociedade de que empresário é ladrão e que só faz enriquecer às custas das pessoas

O Brasil é tão surreal que Kafka se sentiria deprimido se entre nós vivesse. Este Brasil de hoje não vai chegar em lugar algum, em que pese o grande esforço desses jovens e alegres empreendedores, ainda imersos na ilusão de que uma boa ideia pode mudar o mundo. Os anos 60 já se foram faz tempo e o Brasil sequer chegou neles

 

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