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Editorial

Do Velho, do Novo e do Lugar Nenhum (08/06/2017)

O Brasil é um país de ponta cabeça. Tudo o que observa aqui parece ser o contrário do que predomina no resto do mundo. Por razões profissionais, eu convivo com muita gente, pessoas dos mais diversos perfis, associadas às mais variadas atividades empresariais. É um dos benefícios da consultoria gerencial, que foi potencializado pela nossa associação com o Think Tank europeu Ambrosetti. Um dia típico meu só termina depois de conversar com pessoas de pelo menos meia dúzia de atividades completamente distintas.

Diariamente eu me vejo frente a uma situação surreal. A maior parte das pessoas está chocada com o grau de distorção, corrupção, desmandos e falta de senso público dos políticos. Na ótica coletiva, o Brasil não é nada mais do que uma terra a ser explorada e dilapidada pelo mais esperto, mesmo que ele tenha de se compor com outros malandros como ele. O Brasil de 2017 é igual ao das capitanias hereditárias, com a única diferença que a população atual é infinitamente maior do que a de 300 anos atrás. A perplexidade se une à experiência de vida para desaguar em um desencanto geral e em uma falta completa de otimismo com relação ao futuro. Há 500 anos que o Brasil é um feudo selvagemente explorado por poucos em absoluto desrespeito à lei e as pessoas. Assim foi, assim é e, na ótica de muitos, assim será para sempre

No meio desse cenário negro brotam jovens inovadores que se escudam na falta de vivência para sonhar com um futuro bastante diferente. Esses jovens lutam contra tudo – da estúpida burocracia brasileira ao pensamento cartorial, do Estado centralizador à fúria legisladora, da inépcia do judiciário ao perfil profundamente individualista da sociedade brasileira – para tentar viabilizar projetos e negócios originais. Projetos esses que qualquer país sério do mundo apoiaria de maneira decidida, oferecendo infraestrutura física, capitais a baixíssimo custo, simplicidade fiscal e burocrática, acesso a mercado, regulamentação simplificada (ou ausência de regulamentação) e, acima de tudo, imensa simpatia pela iniciativa. É o oposto do Brasil, onde uma ideia disruptiva gera desconfiança dos consumidores, imediato desejo de pesada tributação por parte do governo, imediato desejo de extensa regulamentação por parte dos legisladores, imediata reação corporativista por parte daqueles que receberão a nova concorrência, zero de acesso a mercado, zero de acesso a capitais de financiamento e uma visão geral de que o esforço do empreendedor é só mais “um jeito de alguém explorar os outros pra enriquecer”

O Brasil atingiu a perfeição: temos uma economia dirigida a favor de apaniguados, um sistema político que visa concentrar poder e dinheiro nas mãos de poucos, uma imensa burocracia pública que visa garantir o emprego de milhões de indivíduos que não produzem nada, um sistema legislativo que tira proveito da ignorância popular para interferir na vida de tudo e de todos, gerando um emaranhado de leis que ninguém entende, um sistema fiscal obtuso e pesadíssimo que tem a dupla função de injetar uma fortuna na máquina estatal de desperdícios enquanto sustenta máfias de fiscais, e uma mentalidade que se espalhou pela sociedade de que empresário é ladrão e que só faz enriquecer às custas das pessoas

O Brasil é tão surreal que Kafka se sentiria deprimido se entre nós vivesse. Este Brasil de hoje não vai chegar em lugar algum, em que pese o grande esforço desses jovens e alegres empreendedores, ainda imersos na ilusão de que uma boa ideia pode mudar o mundo. Os anos 60 já se foram faz tempo e o Brasil sequer chegou neles

 

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